Na entrevista a seguir, o ator que interpretará um turco na próxima novela das nove de Glória Perez, na Globo, ainda sem data de estreia, mostra quem é Tiago Abravanel.
ISTOÉ – Soube que o Silvio Santos ainda não viu o seu musical.
Tiago Abravanel – É verdade. Mas o encontrei no nascimento do Gabriel (o segundo neto de Silvio Santos), há duas semanas, e ele me falou que está feliz com o meu sucesso. E me disse que virá assistir. Meu avô é muito engraçado. Ele disse: “Eu vou lá assistir e ninguém vai saber, porque eu vou ao teatro disfarçado. Nem você vai me ver na plateia.” Tá bom, né? É só ele falar boa noite que acabou o disfarce! Eu amo o meu avô, é um cara fantástico. Apesar de velho, ele vive o presente e carrega a maturidade naturalmente, com despudor. É uma aula conhecê-lo. Mas deve ser difícil ser o Silvio Santos. Eu não queria ser o Silvio Santos, não.
Abravanel – Não tive muito convívio com o meu avô. Não tenho uma família de propaganda de margarina. Não tenho o costume de almoçar domingo em casa, com a família reunida. Se eu tivesse a oportunidade de ter meu avô mais presente, minha relação com ele poderia ser diferente. Talvez eu pudesse deitar em seu colo, chorar, ouvir histórias. Mas ele (Silvio) sempre trabalhou muito. Minha família não é de margarina porque o meu avô se propôs a ser parte de várias famílias de margarina pela tevê. Já viajei com ele quando criança, mas não temos essa proximidade. O meu contato familiar é muito mais com os avôs por parte de pai do que com o de mãe, o que não representa nenhum problema. Vivi uma situação ao lado dele que me fez entender que meu avô não era uma pessoa normal. Um dia, ele me chamou para ir ao McDonald’s. Você não tem noção do que foi o Silvio Santos no McDonald’s, surreal! Uma multidão em cima da gente dizendo que o amava. Foi difícil sair daquele lugar.
ISTOÉ – Gostou de ele ter deixado a tintura de lado e assumido os cabelos brancos?
Abravanel – Eu vejo o meu avô normal, sem maquiagem, de camisa aberta, chinelão, não pela televisão. Então, é engraçado porque ele está velho! 81 anos, né? Está avô. Não sei de qual jeito eu o prefiro. Mas acho que (assumir os cabelos brancos) é uma forma de encarar a realidade e mostrar às pessoas que mesmo na televisão a gente envelhece. E que ele não é de cera mesmo, porque já me perguntaram se o Silvio Santos era de cera!
ISTOÉ – A família Abravanel superprotegeu você?
Abravanel – Minha mãe foi cuidadosa no sentido de que eu aproveitasse a infância e não me tornasse um ator mirim. Ela viu, quando eu era pequeno, que iria seguir a vida artística. Mas, naquele momento, a arte seria melhor aproveitada como forma de me educar e desenvolver. Deveria estar a trabalho da minha infância, e não o contrário. Eu morava em uma casa com sete mulheres: mãe, três empregadas, duas irmãs e uma afilhada de meus pais. Hoje, moro com cinco, uma empregada e uma irmã saíram. Aos poucos, a minha família está percebendo que estou saindo do casulo, criando asas. Os oito meses que passei no Rio de Janeiro com o musical foram ótimos para mostrar que posso fazer as minhas coisas, pagar as minhas contas, enfim, vida de gente grande. Minha mãe entendeu que o meu quarto já está pequeno.
ISTOÉ – Que precauções toma para não sucumbir às tentações da vida artística?
Abravanel – A tentação da vida artística vai sempre estar presente e muitas vezes a gente cai nela. Agrados que as pessoas fazem para mim por achar que eu mereço, como, por exemplo, chegar ao restaurante e ser de pronto levado para a mesa, mesmo com uma fila imensa, me incomodam. Não sou intocável, não vivo no pedestal. O artista tem de ser igual para criar identificação com as pessoas. Mas é esquisito de um dia para o outro você sair na rua e as pessoas quererem tirar foto ao seu lado. Eu fui a Brasília e as pessoas sabiam quem eu era. E eu nem fiz uma novela das nove!
ISTOÉ – Interpretar o Tim Maia também ajuda nesse sentido.
Abravanel – O grande segredo do sucesso do espetáculo é a falta que as pessoas sentem do Tim. Obviamente eu não recebo o Tim Maia no palco (risos), mas as pessoas comentam que parece que eu o incorporo. Tudo o que eu faço em cena é absolutamente consciente e calculado, cada olhar, cada movimento, cada respiração. Mas ouço as pessoas dizerem: “Baixou o Tim Maia nele.” Antes de eu ser o Tim Maia no teatro, ninguém me achava parecido com ele; agora o tempo inteiro gritam o seu nome para mim. Não sou negro nem tijucano. Mas olho no espelho e às vezes tomo um susto. Brinco que antes eu era o neto do Silvio Santos, hoje sou o Tim Maia, mas quando vou ser o Tiago, ter personalidade própria?
ISTOÉ – Teve de ganhar peso para viver o Tim?
Abravanel – Não. Nasci gordo, fiz todas as dietas do mundo, emagreci, engordei. Pior do que o preconceito externo, não existe coisa pior do que o autobullying. O fato de a gente não se aceitar como é, fisicamente falando no meu caso, prejudica o nosso desenvolvimento. O Tim era a bipolaridade em pessoa: o gordo autêntico e divertido que todos amavam e, ao mesmo tempo, o mais escroto e depressivo que mandava todos para a p.q.p. Graças a Deus, tive a oportunidade de fazer terapia. Eu me boicotava no sentido de acreditar que não fosse capaz de realizar coisas.
ISTOÉ – Tem algo que gostaria de ter feito e ainda não conseguiu por conta do peso?
Abravanel – Tenho um sonho que até hoje não realizei – e essa minha forma física foi o que mais me prejudicou – que é ser bailarino. Desde pequeno. Quando canto, sou feliz; quando atuo, idem; mas, quando danço, é a plenitude. Quando eu era pequeno, minha mãe me perdeu em uma loja de produtos de dança e me encontrou de olhos vidrados na frente de uma televisão assistindo ao (Mikhail) Baryshnikov (bailarino nascido na Letônia e naturalizado norte-americano) dançar. Aí, eu disse a ela: “Mãe, eu não sabia que homem podia dançar.” Eu tinha 4 ou 5 anos. Aí, ela respondeu: “Mas quem disse que homem não pode dançar?” Então, eu falei que queria ser bailarino. Só que, no aniversário seguinte, ganhei uma luva de boxe do meu pai (risos) e não virei bailarino.
ISTOÉ – Há quanto tempo faz terapia? Foi o peso que o levou ao terapeuta?
Abravanel – Desde criança, a partir dos 10 anos, eu creio. Não foi por causa do peso. É a primeira vez que conto isso publicamente: eu sou disléxico. Sempre tive problema com leitura, de ler em voz alta. Sempre tive medo, ainda tenho esse problema, claro, menor do que antes. E é muito louco porque sou ator! Eu não consigo ler para outra pessoa em voz alta. Na escola, não conseguia entender a ordem das palavras, gaguejava... Porque eu travo. Está escrito banana e eu leio maçã.
ISTOÉ – Parou de fazer terapia?
Abravanel – Fiz terapia por dez anos. Parei um tempo e há dois anos faço cinesioterapia (reabilitação funcional por meio da realização de movimentos corporais). A terapia serve para a gente se olhar no espelho, reconhecer a casa, saber onde estão as sujeiras, quais devem ser jogadas fora e guardadas para o resto da vida. O maior aprendizado que ela me deu foi poder identificar coisas dentro de mim. Talvez por isso eu pude ser verdadeiro para as pessoas, me tornar um homem e encarar a vida mesmo com as crises.
ISTOÉ – Quando se olha no espelho, como se vê?
Abravanel – Depende do estado de espírito. Tem dia que olho e penso: “Que porra é essa?” Mas tem dias que falo: “Você é incrível, uma delícia.” Já tive muitas crises com meu corpo, mas hoje vejo que posso ser incrível, que sou uma delícia mesmo gordo.
ISTOÉ – Viver o Tim Maia o tornou mais atraente?
Abravanel – O Tim Maia tinha o poder da conquista pelo timbre da voz, que era muito sedutora, apesar de ele não acreditar nisso. Talvez ter essa sensibilidade e o domínio por meio da voz me tornou uma pessoa mais atraente. Já vi, várias vezes, gente da plateia olhando para mim de maneira diferente. O cantor de massa se torna apaixonante, admirável e é por meio disso que se conquista pessoas que vão segui-lo para o resto da vida, consumir a sua arte, o seu trabalho. Esse trabalho me proporcionou esse jogo de sedução, de conquista.
ISTOÉ – Mas há pessoas que, após o musical, se apaixonam por você e não pelo Tim Maia?
Abravanel – Isso rola, com todas as idades. As velhinhas apertam a minha bunda. Pessoas me procuram no Facebook se dizendo apaixonadas. Mas ainda ninguém me colocou na parede de jeito... estou superaberto a isso! Eu não valho um real! Sou um gordo bem safado. Se a pessoa me der bola, eu vou lá e faço o gol. Não tenho frescura. Estou solteiro há dois anos, mas sou para casar.
ISTOÉ – Sobre os bauretes, expressão usada pelo Tim Maia ao se referir à maconha, você já experimentou?
Abravanel – Já fumei maconha. Agora, não tenho mais o costume de fumar, não me faz bem. Mas não sou contra quem fuma. Penso que tudo em excesso não faz bem, até o amor, amar de mais não faz bem. Eu fumei cigarro por dez anos, desde os 14. Era um maço por dia. Faz seis meses que parei. Louco, né? Parei lá no Rio de Janeiro. No fim de uma noite, quando fui jantar, vi que havia fumado apenas um cigarro naquele dia. E percebi que não precisava daquela merda. Mas não podia descontar a ausência do cigarro na comida, senão iria me matar. Aí, substituí o cigarro por uma garrafa de dois litros de água, que passei a levar para todo lugar. É muito triste assumir que cresci com uma dependência. Mas eu cresci.